O CASAL DA SAINT GERMAN

Se conheceram jovens. Deviam estar em um baile repleto de sorrisos largos, olhares longos, saias rodadas e música alta. Um ambiente que escondia rostos com fumaça de cigarro e brumas da noite. 

Ele deve ter a visto dançando entre as amigas, rodopiando com seu vestido azul, sorrindo como se não houvesse amanhã. Ah, ele desejou com todas as forças puxá-la para o centro e dançar com ela em seus braços a noite inteira, exibindo para quem quisesse ver que ela, o escolheu para girar na pista. 

Seu coração até palpitava mais forte com a ideia; mas ele era tímido. Ficou em silêncio a observando de longe, imaginando como seria o fundo dos seus olhos.

O que ele não sabia, é que seu olhar queimava. Ardia na pele dela com tanta força que não tinha como negar um olhar tão quente sobre o seu corpo.

Um incêndio se formou em seu coração aos poucos.

Ela olhou em volta tentando descobrir quem seria o dono de um olhar tão denso, e logo ali, no canto do salão, a encarando com desejo, ele queimava por ela. No mesmo momento ela soube que era ele, era ele no meio de toda a multidão.

Ela atravessou o salão em sua direção, puxou a mão do jovem tímido o chamando para dançar. 

Eu diria que foi ao som de La Vie en Rose que se apaixonaram, mas seria óbvio demais. Foi com a voz de Frank Sinatra.

Uma única noite foi o que custou para os dois corações se entrelaçarem. 

Eles começaram a se ver todos os dias durante três semanas, faziam passeios calmos durante a noite e aventuras épicas durante o dia. Pulavam muros, roubavam flores, beijavam na chuva. Se amaram um pouco mais a cada segundo.

Até tentaram esquecer o terror que assombrava a Europa aos poucos, achavam que o amor era maior e que nada os separaria; mas logo os jornais anunciaram que a França havia sido invadida.

Ela arrancou o coração do peito e deu para ele levar para o campo de batalha, “vai que com um pouco de amor ajuda, né?” Ela disse o entregando com cuidado deixando com que algumas lágrimas caíssem entre a plataforma e os trilhos do trem. 

Ele respondeu que assim que voltasse, eles se casariam na Notre Dame.

Ela sorriu, mas a única promessa que ela queria, é que ele voltasse.

Trocaram cartas. Muitas.  Em todas, ele tentava esconder com palavras de amor e alguns poemas, os horrores que vivia no campo de batalha. Ela caprichava na letra e não media palavras na hora de esconder o medo que a assombrava.

Depois de dois anos traçados por cartas, ele foi dado como desaparecido.

Ela se quebrou ao meio. 

Ficou desesperada, inconsolada, arrasada.

Era mais uma das coisas que a guerra havia tirado dela.

O que ninguém contava é que o amor a deixou forte. Cada jura a deu força de não desistir, ele prometeu. Sempre cumpria suas promessas. 

Ela procurou por ele em toda a França, seu coração dizia que ele ainda estava por aí, que ele ainda era dela.

Nada foi encontrado. 

Ela queria pegar o trem e pisar no campo de batalha, queria buscar entre as trincheiras, bombas, soldados e destroços por seu amor. Queria encontrá-lo sozinha, queria pegá-lo nos braços e sentir o coração dele bater perto do seu, queria beijá-lo e levá-lo para longe de tudo. Mas sua família não a deixou embarcar no trem.

Nenhum dos dois sabe dizer quanto tempo se passou. Noites longas demais, dias nublados demais. Quando menos esperava um telegrama chegou em suas mãos em uma tarde quente.

Linhas curtas avisavam que seu amor havia sido encontrado. Ele estava deitado em um hospital de campanha na Normandia. 

Ela pulou a janela do quarto, pegou um trem e foi encontrar com ele.

Seu coração sempre falou mais alto que a razão.

Dias mais tarde, a França estava livre.

Se casaram em uma capela no campo.  Com vista para a plantação de lavanda, se olharam nos olhos e juraram amor eterno. 

Até hoje os convidados acham que o cheiro de amor é o mesmo de velas de lavanda. 

Tiveram cinco filhos que cresceram mais rápido do que o esperado. 

Eles moram agora em um apartamento em Saint Michel, e todo sábado de manhã, vão à feira de rua de mãos dadas comprar lavandas para a semana. 

Tudo para não se esquecerem que o amor, ainda flutua no ar que respiram. 

Parece que é algo digno de Nicholas Sparks, mas eu acho que é verdade. Toda vez que vejo essa foto, penso que essa é a história por trás. Mas como vamos saber, não é mesmo? Só temos essa foto dos dois juntinhos trocando um olhar caliente.

Com todo o meu amor, 

como sempre,

S. Ganeff

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