O PULO DA JANELA

Minhas aulas de inglês eram a definição de tédio. Depois de um tempo de aula, as palavras começavam a se embolar, você não ouve mais nada e como uma anestesia, você parava de sentir. 

Um efeito colateral terrível, mas acontecia com todos.

Até com o pobre coitado do Teacher.

Eu e meus dois fies companheiros, queríamos sentir algo. Sentávamo-nos de costas para as grandes janelas com vidros grossos cobertos por filmes escuros, mas apenas quando abertas conseguíamos ver que depois do parapeito havia uma sacada extensa mirando a frente da Cultura Inglesa e a rua. 

Nós três tínhamos o forte desejo de sentir, de fazer algo de produtivo nas duas horas de aula. Assim eu, Sardas de Prata e Dedo Rosa jogávamos os mais variados jogos. Fazíamos o que podíamos para nos distrair da aula, mas certa vez, qualquer brincadeira silenciosa era fraca demais para nossos corações anestesiados. 

Surtando de tédio, nós três nos olhamos em busca de alguma salvação. Foi quando Dedo Rosa sorriu:

— E se… — tirou a caneta da minha mão — fizéssemos isso.

Com um movimento rápido, Dedo Rosa jogou minha caneta BIC pela janela aterrissando no chão de ladrilhos da sacada.

— O que você fez? — Disse a Dedo Rosa olhando a sacada tentando encontrar minha caneta.

Dedo Rosa e Sardas de Prata começaram a rir.

— Ih, Sophie, agora vai ter que pegar.

— Ah é? — peguei o lápis na mesa de Sardas de Prata — você também. 

Taquei o lápis para fora da janela caindo do lado da minha caneta.

— Ih… agora vocês duas vão ter que pegar — Dedo Rosa disse baixinho para o Teacher não perceber.

— Tá rindo do que, Dedo Rosa? — Sardas de Prata pegou a borracha de Dedo Rosa e jogou para fora — agora você também vai ter que pegar. 

Aqueles três itens escolares eram nossas observações semanais. Fazia sol, ou fazia chuva, a caneta, o lápis e a borracha continuavam lá, a espera de uma oportunidade de serem salvos. 

Seis meses se passaram até que, em uma aula, não aguentávamos mais. Era tudo muito chato, tudo muito monótono. Não havia brincadeira que nos salvasse. 

Mas a oportunidade sorriu para nós. No meio da aula, o Teacher disse que buscaria um pen drive lá embaixo na secretaria e já voltava. A classe ficou sozinha. 

Três lances de escada para descer. 

Três para subir. 

Podia pegar o elevador, mas o tempo seria o mesmo.

Era a nossa chance. 

Assim que o Teacher saiu fechando a porta atrás de si, subi na cadeira e pulei a janela direto na sacada.

— O que você tá fazendo? — disse Dedo Rosa enquanto a sala inteira olhava.

— Buscando a minha caneta, ué.

Dedo Rosa e Sardas de Prata trocaram um olhar.

Mas agora que estava na sacada do terceiro andar da unidade 333 da Cultura Inglesa, tinha que aproveitar a vista.

— Olha, — disse me distanciando da janela e andando para o parapeito — da para ver daqui a Mulher do Balcão onde eu busco o meu pão quase roubado recheado do queijo quase pago. Será que se eu der um tchauzinho ela consegue ver?

Era a frase necessária para conquistar a coragem de Sardas de Prata.

— Deixa eu ver — disse já com as pernas para fora. — Não é que é verdade? Da até para ver o Marquinhos. Vem, Dedo Rosa, olha só.

Dedo Rosa olhou para a porta e depois olhou para nós lá fora.

Todos os alunos ficaram em silêncio observando Sardas de Prata e eu apreciarmos a visa e esperando Dedo Rosa tomar a decisão que mudaria a sua vida.

— Calma, — disse subindo na cadeira e pulando a janela — é verdade, da para ver tudo daqui mesmo!

A classe assistia com um olho nossas gargalhadas da sacada enquanto o outro olho espiava a porta para ter certeza que o Teacher não iria chegar.

— Ele já deve estra vindo! — disse um menino sentado perto da porta.

Rapidamente, pulei a janela de volta e me sentei em meu lugar. Sardas de Prata fez o mesmo. Mas quando Dedo Rosa estava prestes a pegar impulso e subir na janela, a porta se abriu bruscamente e nosso amado Teacher chegou com o pen drive vermelho na mão.

A sala inteira olhou de relance para a janela.

— Que foi gente? Parece que viram um fantasma.

Todo mundo ficou em silêncio mórbido.

Dedo Rosa se abaixou rapidamente e engatinhou para debaixo da janela torcendo para o Teacher não a visse.

Ele por sua vez, lançou um olhar desconfiado para os alunos, mas em silêncio se virou para colocar o pen drive no computador todos nós miramos a janela.

Sardas de Prata e eu segurávamos tanto o ar dentro de nossos pulmões que nosso rosto já ficava vermelho. 

— Já percebi que vocês tão vendo alguma coisa na janela.

O Teacher começou a andar em direção a janela. Sardas de Prata escondeu o rosto com as mãos enquanto eu abraçava meus joelhos sentindo o destino fatídico me tocar.

Segurando a maçaneta, o Teacher fechou a janela com força.

— Não! — todos os alunos disseram em uníssono.

— Ferrou — disse para Sardas de Prata.

O Teacher olhou em volta passando o olho em cada um de nós. Parte dele sabia que algo estava errado, mas não sentia a falta de Dedo Rosa. Eu disse que depois de um tempo as pessoas param de sentir.

— Vocês estão com calor? É isso? 

— Sim, — respondi tentando esconder minha voz desesperada com gestos largos — estamos com calor.

— Hot — Sardas de Prata disse se abanando — so hot.

— Eu ligo o ar, tá?

Fizemos que sim com a cabeça incapazes de soltar qualquer som.

Ao ouvir apito do ar condicionado ligando, uma trovoada soou do lado de fora. 

— Tá vendo, ia chover também…

— Vai chover?! — Sardas de Prata e eu gritamos em um único som. 

— Nossa… tá acontecendo alguma coisa? Já deve estar chovendo…

— Tá chovendo? — disse me voltando para a janela atrás de mim.

— Deixa eu ver isso direito — Sardas de Prata disse abrindo a janela de filme escuro. 

O Teacher se voltou para o computador na parede oposta, Sardas de Prata e eu olhávamos para a sacada em busca de Dedo Rosa. 

Os pingos grossos já estavam caindo lá fora e o céu ameaçava colocar mais força. Dedo Rosa estava encolhida na parede debaixo da janela em uma tentativa de se proteger da chuva que já a molhava por inteiro.

— Eu vou matar vocês.

— Cala a boca e vem logo.

Olhamos rapidamente para o Teacher que estava tendo problemas técnicos com o computador e o pen drive.

— Vem.

Dedo Rosa deu um pulo e passou a primeira perna para dentro.

— Gente, fecha a janela se não…

No flagra. 

O Teacher viu com os próprios olhos Dedo Rosa com uma perna para dentro da janela e outra para fora pingando água negra que cai do céu de São Paulo.

Ele ficou no mesmo estado de choque que todos nós ali presentes.

Acredito que até os anjos que nos assistiam do céu ficaram sem ação.

— Então é por isso… — seus olhos correram ao estado de Dedo Rosa que continuava sentada na janela sem saber se entrava e encarava a bronca ou caía para fora e dava tchau para o Marquinhos da sacada. — Dedo Rosa, — ele balançou a cabeça enquanto falava — desce comigo. Vou te levar até a Dona Sorriso. Ela vai adorar saber o que aconteceu.

Dedo Rosa trocou um olhar rápido, mas cheio de fogo comigo e com Sardas de Prata enquanto saía pela porta.

A porta se fechou, nossa respiração começou a se normalizar e nossas batidas cardíacas a sincronizar. 

— Ei, — Sardas de Prata disse me cutucando — a caneta, a borracha e o lápis ainda estão lá fora, bora pegar?

Com todo o meu amor, 

como sempre, 

S. Ganeff

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