A TRAIÇÃO DE TEDDY

Meu coração foi partido pela primeira vez por um moço chamado Teddy. 

Teddy, meu mais genuíno e único companheiro, me traiu quando menos esperava, em uma noite que eu mais contava com a sua presença.

Tudo começou quando Pai Engenheiro disse que passaríamos um feriado no Rio. É claro que levei o Teddy, era inocente suficiente para necessitar da companhia dele para onde eu fosse. 

Chegando no Rio, descobri que na verdade ficaríamos na quitinete de Primo Paulista e Jabuticaba. Descobri também que além de mim e Pai Engenheiro, Tia do Divã e Tio Careca ficariam hospedados na quitinete. Descobri que cabem sim seis pessoas na quitinete, mas o banheiro é o problema. Descobri também que dormiria na cozinha. 

Não lembro muito do Rio, mas posso te dizer que nas fotos Teddy e eu éramos inseparáveis. Teddy me acompanhou na foto do Cristo Redentor, foi para a praia, para o Jardim Botânico. Para onde fossemos, eu segurava a mãozinha do Teddy e andávamos lado a lado explorando o Rio de Janeiro. No fundo eu sei que Teddy estava gostando da viagem tanto quanto eu.

Até a última noite.  

A última noite foi fatídica. 

À noite, dormi com Teddy em meus braços na cozinha, mas na manhã, acordei com Primo Paulista e Jabuticaba sorrindo. 

— O Teddy saiu com a gente ontem a noite. 

— Que?

Primo Paulista me mostrou as fotos na câmera.

Era o Teddy na balada. 

Teddy bebendo.

Teddy se divertindo. 

Teddy dançando.

Teddy dando PT.

Não conseguia ver aquilo. 

Peguei o Teddy nos braços e disse chorando:

— É mentira.

— Claro que não, menina — Jabuticaba mostrava outras fotos — não tá vendo?

Meu coração caiu em pedaços no chão gelado da quitinete. Segurei Teddy firme em meus braços, mas logo o soltei. Ele havia me abandoando no meio da noite, quando eu mais contava com sua ajuda, com a sua segurança.

— Tá vendo? Você acha que ele fica com você a noite inteira, mas na verdade ele sai.

Jabuticaba caiu na gargalhada enquanto eu não parava de chorar. 

Até hoje, consigo ouvir os risos e sentir meu choro latejar no peito.

Voltei para São Paulo sem querer tocar no Teddy, com lágrimas nos olhos a viagem inteira, Pai Engenheiro que o segurava no aeroporto e me dava lencinhos esporadicamente. 

Assim que cheguei em casa, contei para Mãe Bióloga a traição do Teddy. Eu sei que o coração dela se partiu assim como o meu quando viu meu choro descontrolado, observando as lágrimas quase secas escorrerem por minhas bochechas infantis e meus olhos inchados entregarem mais do que as palavras a dor que meu pequeno coração sentia. 

Ela me disse que era mentira e fez com que o Teddy pedisse desculpas. Fiz as pazes com Teddy. Esquecemos o passado obscuro e continuamos melhores amigos durante muitos anos.

Ele era meu grande companheiro, meu melhor amigo, meu confidente, meu parceiro de aventuras. Quem eu mais confiava no mundo inteiro. Teddy nunca foi apenas um Ursinho de Pelúcia, Teddy representava, de uma maneira lúdica, uma proteção e uma casa para uma criança que nasceu entre pais divorciados. 

A traição dói ainda hoje por tudo que ela representa, para mim aos cinco anos, meu único porto seguro havia de fato me deixado. Eu o amava muito e eu sei que ele me amava também, tínhamos um laço de confiança que nunca deveria ter sido quebrado.

No final, entendi que traições de garotos reais doem tanto quanto traições de ursinhos de pelúcia. A confiança, leitor, de uma criança de cinco anos em seu ursinho de pelúcia é a mesma. 

Não nego que, a traição de Teddy ainda lateja muito em meu coração. 

Mas sei que dói mais no de Mãe Bióloga. 

Com todo o meu amor,

como sempre, 

S. Ganeff

4 comentários em “A TRAIÇÃO DE TEDDY

  1. hahahahahhha sensacional, né? Calma que ainda tem muita história do Teddy por vir, como aquela vez que ele foi para o forno… e de verdade, agardeço muito cada comentário seu, Lara, é o que me move. Obrigada.

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