O AVIÃO CAIU

O ano era 2009, Pai Engenheiro, Tia do Divã e Tio Careca (licença poética para chamá-lo assim), decidiram passar a virada do ano no Fim do Mundo, na Terra do Fogo. Ushuaia. 

Uma cidade de três ruas e geleiras localizada na ponta extrema sul da América do Sul.

Para chegar no destino, tínhamos que pegar três voos, um para Buenos Aires, outro para El Calafate e um último até Ushuaia. Pelo menos era assim na minha época.

E por ser extremamente cansativo, passaríamos alguns dias em um apartamento em Buenos Aires.

Mas o problema começou logo no primeiro voo. Em uma noite antes de embarcarmos, Tia do Divã teve um pesadelo terrível, nosso avião caía. No meio do voo as turbinas falharam e o avião se despedaça na cordilheira deixando apenas a caixa preta e restos de amendoins para trás. Todo mundo lá…é.

Para Tia do Divã, aquele sonho era uma premunição, um aviso. Alguém lá em cima estava tentando avisá-la que algo não daria certo naquele voo. 

Desesperada, ligou para Pai Engenheiro contando cada detalhe sobre a premunição. 

— Deixa disso, não vai acontecer nada.

Ela soltou um suspiro cansado.

— Depois não diga que não avisei. Ah é, verdade… você não vai poder dizer mesmo. Não me assombra, tá?

Tia do Divã mudou suas passagens e as do Tio Careca para um voo que sairia vinte minutos depois com o mesmo destino, apenas de outra companhia aérea. 

Nos despedimos antes de entrar no avião e Tia do Divã disse:

— Não pega um taxi sem a gente, tá? Tô com todos os documentos o endereço do apartamento, tudo que a gente precisa.

— Beleza — respondeu Pai Engenheiro pegando na minha mão e entregando nossos passaportes à aeromoça.

Durante o voo a cada turbulência, eu via Pai Engenheiro espremer os olhos e se segurar na cadeira. Ele amarrou meu cinto de segurança tão apertado, que eu nem conseguia respirar direito e a cada movimento bruto da aeronave ele esticava o braço sobre mim. 

Assim que sentimos os pneus tocarem em terra firme, Pai Engenheiro soltou um “Rá” seguido de algumas palmas. 

Saindo do avião, Pai Engenheiro dizia as aeromoças:

— Parabiens al piloto. Mui bueno. No caiu. No caiu.

E assim que pisamos em solo argentino disse:

— Eu disse que não aconteceria nada. Eu já sabia. Essas coisas não acontecem — até hoje não sei dizer se ele disse isso para mim ou para ele mesmo.

Pegamos nossas malas e esperamos por Tia do Divã e Tio Careca na saída do aeroporto. Ficamos uma hora esperando. Pai Engenheiro segurava as malas e eu abraçava Teddy com força sem entender o que estava acontecendo.

Pai Engenheiro começou a ficar preocupado, ele deixou de se importar com a taxa de roaming, para você ver o nível de desespero, e começou a ligar para Tia do Divã sem parar. 

Era 2009, não tinha WhatsApp, WI-FI ou rastreador legal aceito pelo governo. Não tinha como descobrir o que aconteceu com Tia do Divã e Tio Careca. Eles simplesmente desapareceram.

Depois de duas horas esperando no aeroporto, Pai Engenheiro decidiu que tínhamos que nos alimentar e ir ao apartamento. Mesmo que não tivéssemos nada. Nem mesmo o endereço. 

O que eu lembro desse momento são flashes, leitor. Estava com muita fome. Me lembro de pegar um taxi, mas não faço ideia para onde ia. Lembro de pedir comida e de Pai Engenheiro responder um “eu sei” enquanto ligava para Deus e o mundo sem saber o que fazer. Lembro que tivemos que subir um escadão gigantesco onde tive que carregar minha mala para cima e para baixo. Não sei por que subimos muito menos porque descemos. 

Lembro que acabamos indo para um supermercado e comemos alguma coisa sentados na calçada. Primeira vez que comi na sarjeta, mal sabia eu que não seria a última.

Chegamos em Buenos Aires às dez da manhã. Às nove da noite, Pai Engenheiro cogitava passar a noite na delegacia ou no consulado.

Sentados em um banco de praça com as malas ao redor, uma mensagem de outro plano atingiu o celular de Pai Engenheiro em cheio.

“Voltamos para o Rio. Turbina. Gasolina.” E o endereço do apartamento junto com um telefone.

Era Tia do Divã.

Pai Engenheiro arregalou os olhos assim que recebeu a mensagem. Colocou a mão na boca, como sempre fazia e olhou ao redor confirmando que não tinha mais ninguém ao seu redor. Pelo menos alguém visível aos olhos humanos não treinados.

Nunca vi alguém achar um táxi na rua tão rapidamente quanto Pai Engenheiro naquele momento. Ele pulou no banco de trás do táxi com uma habilidade que deixou o motorista perplexo. No caminho ele ligou para o número e se arriscou em um espanhol explicando o que tinha acontecido.

Leitor, Pai Engenheiro nunca fez uma única aula de Espanhol, mas naquele momento ele falava com a mesma intensidade de um discurso de Che Guevara. Naquele instante, Pai Engenheiro até conseguiria recitar Dom Quixote sem errar uma palavra.

A Dona do Apartamento entendeu nossa situação e nos deixou entrar entregando a chave.

— Pela niña — disse fechando a porta atrás de si.

Assim que ficamos sozinhos no apartamento, Pai Engenheiro disse:

— Viva! Finalmente, hein?

Tia do Divã e Tio Careca chegaram às duas da manhã. Ouvi suas vozes ecoarem pelas paredes dizendo:

— Decolamos, mas no meio do voo faltou gasolina e fomos para o Rio. Depois de abastecer voltamos a voar, mas perto da fronteira, uma das turbinas quebrou, falhou, já era. Pousamos em uma cidade minúscula já que o avião tinha de fato um risco de cair.

O corredor ficou em silêncio.

Até que Pai Engenheiro soltou uma gargalhada dizendo:

— Não me assombra, tá? — imitando a voz de Tia do Divã.

Tia do Divã murmurou alguma coisa, mas apenas a voz do Tio Careca chegou até mim.

— É. De graça é caro.

Com todo o meu amor, 

Como sempre, 

S. Ganeff

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