PERDIDAS NO MAR

O barco em que estávamos era lindo. Tão grande que fazia com que qualquer um que não o conhecesse, se perder. Estávamos tomando sol na proa quando a Dona do Barco perguntou se queríamos andar de stand up.

— Claro!

Dona do Barco pegou as duas pranchas e os dois remos.

— Tem um problema: a gente só tem dois e… somos em três. Vocês podem dividir um se quiserem.

Rabanete olhou para mim se perguntando se daria certo. 

— Eu nem sei remar direito…

— Relaxa — disse animada. — Pode deixar que a gente divide. 

Rabanete arregalou os olhos e balançou a cabeça, murmurando um “tá de sacanagem” inaudível a quem não a conhecesse. 

Colocando as duas pranchas na água e pulando em seguida, Dona do Barco subiu na prancha sem nenhuma dificuldade e se pôs a remar pelas águas cristalinas, enquanto Rabanete fazia o que podia para não afundar e eu, tentava ao máximo subir na prancha sem fazê-la virar.

— Sophie, — Rabanete chamou esticando a cabeça para fora da água, — ela já tá remando lá longe.

Apontou com a cabeça para Dona do Barco que remava graciosamente.

— Calma, é só a gente subir que a gente alcança ela.

— Sei… — Rabanete pronunciou a palavra com força para não deixar com que a água salgada não entrasse na sua boca. 

Quando finalmente consegui subir na prancha, depois de muito esforço, olhei para Rabanete que mexia suas pernas rapidamente e batia seus braços com força para não afundar.

— Sabe remar?

— Puff, até parece.

— Vem, — disse esticando a minha mão — você se senta aqui na frente.

Rabanete se sentou na frente da prancha de pernas cruzadas, e eu, tentava ficar de pé para conseguir remar, mas não havíamos percebido que uma corrente nos levava para longe do barco.

— O que vocês estão fazendo? — Dona do Barco gritou distante — vem pra cá.

Olhamos para ela de pé na prancha segurando o remo como se já tivesse nascido com ele.

— A gente tá longe, né? — Rabanete disse entortando a cabeça observando nossa amiga distante.

— Relaxa, a gente rema e chega lá rapidinho. 

— Sei…

— Tá… — fiquei de pé — agora a gente vai.

Comecei a remar, mas a prancha parecia não sair do lugar. Comecei a passar o remo de um lado para o outro com força, mas nada ajudava, a água se mexia e formava uma espuminha com o agito, mas continuávamos paradas.

— Rapidinho, né? — Rabanete murmurou passando a mão de leve na água translucida brincado com a espuma — e ela tá  longe…

— Quer remar então?

— Eu não. Mas se ajuda, posso fazer assim — Rabanete foi mais para a ponta da prancha, abriu as duas pernas e começou a fazer impulso com o corpo para irmos para a frente. 

Os trancos de Rabanete fizeram com que a prancha se mexesse, começamos a nos mover devagar.

— Rabanete, — disse olhando em volta — acho que estamos em uma corrente, a gente tem que se esforçar muito mais. 

— Tá.

Rabanete começou a dar trancos mais fortes e eu comecei e a remar com mais força ainda. Passamos uns dez minutos assim, mas não adiantava de nada o nosso esforço, a corrente nos levava cada vez mais distante do barco.

— Não tá funcionando. A gente nunca vai sair daqui.

Sentei na prancha enquanto Rabanete olhava para nossa amiga distante.

— Parece que ela tá cada vez mais longe — disse.

— E não tá?

Foi então que o cheiro de churrasco vindo do barco chegou até nós.

— Gente! — Dona do Barco gritou — Vou entrar, mas tô esperando por vocês lá, tá?

— Tá… — respondemos desanimas em uníssono.

— Ela tá de sacanagem, né? A gente vai fica aqui para sempre! — Rabanete se virou para mim — a gente vai ter que caçar peixes para sobreviver!

— Calma, eles não vão nos deixar aqui.

— Sophie, eles já nos deixaram.

Olhei para seus olhos arregalados e sua sobrancelha franzida. O cheirinho de churrasco brincava com nosso estômago, nossa barriga roncava, mas o mar queria nos torturar.

— Tenho uma ideia — disse explicando meu plano que não poderia dar errado.

— Tá.

Rabanete se deitou de barriga para baixo com as pernas para fora se pondo a batê-las agarrando a prancha com força sendo sua única chance de sobrevivência. Já eu, sentei na ponta oposta, abri as pernas e comecei dar os trancos para frente enquanto remava. 

E começamos a nos mexer. 

— Tá dando certo! — gritei da frente.

— É… — Rabanete grunhiu atrás. 

Começamos a suar e parávamos de vez em quando acreditando que iriamos desidratar ou algo do gênero, mas sabíamos que as nossas vidas estavam genuinamente em risco, não podíamos nos dar ao luxo de ficar à deriva.

— Ei! — Dona do Barco gritou do segundo andar com um prato na mão e uma taça de cristal na outra — Vem logo!

— Tamo tentando! — Rabanete rugiu batendo as pernas com força. — Saco, — disse em um murmuro — parece que nem vê a gente tá tentando.

O cheiro do churrasco nem chegava mais em mim, me sentia no bote com Pai Engenheiro, tentando sobreviver no mar observando o grande barco branco de longe. “Ainda bem que ele me ensinou a remar no bote” pensei.

Depois de muito esforço, chegamos no barco.

— Credo, — Rabanete disse quando subimos — nem sinto as minhas pernas.

Dona do Barco veio até nós com um sorriso no rosto segurando duas toalhas.

— Demoraram, hein?

Rabanete a lançou um olhar enquanto eu respondia um “pois é…”. Me embrulhei na toalha e Rabanete disse afobada:

— E o churrasco? A gente tava sentido o cheiro lá longe. Tô com mó fome…

— Só tem o que sobrou, vem, eu vou com vocês.

Dona do Barco subiu as escadas para o segundo andar e Rabanete disse me olhando:

— Ela tá de sacanagem, né?

Não estava. 

Mas a comida tava uma delícia. Aquele velho gosto de vitória e conquista, sabe?

— Cara, — Dona do Barco disse casualmente enquanto eu e Rabanete atacávamos o que podíamos enfiando na boca — fiquei preocupada, sabia? Lá onde vocês estavam dizem que tem muito tubarão. 

Rabanete cuspiu o suco. 

— Você tá de sacanagem, né?

Com todo o meu amor, 

como sempre, 

S. Ganeff

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